Acusado de Violência Doméstica: Como Funciona a Defesa na Lei Maria da Penha
- Felipe Geitens

- 27 de mar.
- 5 min de leitura
Medidas protetivas, risco de prisão preventiva e o papel do advogado criminal na sua defesa.
Ser acusado de violência doméstica é uma das situações mais delicadas que um homem pode enfrentar no sistema criminal brasileiro. A Lei Maria da Penha confere à palavra da vítima um peso probatório significativo, e, antes mesmo de você ser ouvido, medidas que afetam diretamente sua vida podem já ter sido deferidas.
Entender como funciona esse processo e saber o que fazer é essencial. Este artigo traz as informações mais importantes para quem está nessa situação ou conhece alguém que está.
O Que Diz a Lei Maria da Penha
A Lei 11.340/2006 caracteriza o âmbito doméstico e familiar por qualquer relação íntima de afeto, independentemente de coabitação. Ou seja, o fato de o casal não morar junto não afasta a aplicação da lei.
O artigo 7º da lei lista os tipos de violência reconhecidos:
• Física
• Psicológica
• Sexual
• Patrimonial
• Moral
Cada um desses tipos tem descrição detalhada no próprio texto legal. Vale destacar que violência psicológica — que inclui ameaças, humilhações e controle — é um dos tipos mais aplicados atualmente e não exige marcas físicas para ser configurada.
Como Funcionam as Medidas Protetivas de Urgência
Uma das características mais importantes — e impactantes — da Lei Maria da Penha é a possibilidade de o juiz deferir medidas protetivas de urgência com base apenas na declaração da vítima, antes mesmo de o acusado ser ouvido.
Isso ocorre porque os tribunais reconhecem que crimes praticados no âmbito doméstico raramente têm testemunhas e frequentemente são de difícil comprovação. Diante disso, a tendência é proteger a vítima primeiro e apurar os fatos depois.
As medidas protetivas mais comuns são:
• Afastamento do lar
• Proibição de se aproximar da vítima
• Proibição de contato por qualquer meio — ligações, mensagens, redes sociais
• Suspensão de visitas aos filhos, em alguns casos
Atenção — leia com cuidado Se você recebeu uma medida protetiva, cumpra integralmente. Não ligue, não mande mensagem, não apareça nos locais proibidos — nem que ela mesma te procure. O descumprimento, independentemente de quem tomou a iniciativa do contato, pode levar à sua prisão preventiva. |
Descumprimento de Medida Protetiva: O Risco Real de Prisão
Este é o ponto que mais surpreende quem passa por essa situação: o descumprimento de uma medida protetiva gera prisão preventiva com uma facilidade muito maior do que a maioria dos crimes graves.
Há casos em que réus acusados de homicídio ou tráfico de drogas respondem ao processo em liberdade — enquanto um homem que violou uma medida protetiva está preso. E uma vez preso nessa condição, reverter a prisão é possível, mas consideravelmente difícil.
Isso acontece porque os juízes têm consciência do histórico: há casos conhecidos em que o acusado foi solto, descumpriu a medida e, dias depois, agrediu ou matou a vítima. Nenhum juiz quer ser responsável por esse resultado. Por isso, a tendência é manter a prisão.
A orientação é clara: recebeu medida protetiva, cumpra à risca. Qualquer dúvida sobre o que pode ou não fazer, consulte seu advogado antes de agir.
E Se a Acusação For Falsa?
Infelizmente, não é raro. Ao longo de anos de atuação criminal, é recorrente o atendimento de homens que foram alvo de falsas acusações de violência doméstica — motivadas por disputas de divórcio, partilha de bens, cobranças de dívidas ou outros conflitos.
O mecanismo funciona de forma simples e devastadora: a mulher registra um boletim de ocorrência relatando agressão ou ameaça, junta eventuais provas — inclusive marcas autoinfligidas, o que infelizmente também ocorre —, e o sistema processa essa versão como ponto de partida.
Nos processos que tramitam sob a Lei Maria da Penha, o juiz, o promotor e o delegado recebem, num primeiro momento, apenas a versão de quem acusa. Cabe ao advogado criminal apresentar a versão do acusado e construir os elementos probatórios que sustentem essa versão.
Se a vítima vier te procurar É comum que, após a imposição das medidas, a própria vítima entre em contato com o acusado. Se isso acontecer, guarde todas as provas: prints de conversa, chamadas, testemunhas. Registre um boletim de ocorrência se necessário. Essas provas podem ser fundamentais para a sua defesa. |
Como Funciona a Defesa na Prática
Defender um acusado em casos de violência doméstica exige análise cuidadosa de cada elemento do processo. Não existe fórmula pronta. O que existe é um trabalho criterioso de:
• Analisar o conjunto probatório apresentado pela acusação
• Identificar inconsistências na versão da vítima
• Levantar provas que contradizem ou contextualizam os fatos
• Apresentar testemunhas, imagens, mensagens e outros elementos favoráveis
• Requerer diligências na fase de inquérito quando ainda há tempo
• Acompanhar o andamento das medidas cautelares e requerer revogação quando cabível
Um ponto importante: o acusado, por estar emocionalmente envolvido, frequentemente não consegue enxergar com clareza os elementos que podem ajudar na sua própria defesa. O advogado criminal assume esse papel de análise técnica e estratégica — sem o peso emocional que paralisa quem está no centro do conflito.
Além disso, é fundamental que o profissional seja especialista em direito criminal. Um advogado generalista ou sem experiência nessa área específica pode não ter o conhecimento necessário para navegar nas particularidades da Lei Maria da Penha e da jurisprudência atual dos tribunais.
O Que Fazer Se Você Está Nessa Situação Agora
1. Não descumpra nenhuma medida protetiva, independentemente das circunstâncias.
2. Não tente resolver diretamente com a vítima — nem por mensagem, nem por intermediários.
3. Guarde todas as provas que possam comprovar a sua versão: mensagens, chamadas, imagens, testemunhos.
4. Se a vítima entrar em contato com você, documente e informe imediatamente ao seu advogado.
5. Procure um advogado criminal especializado antes de qualquer outra providência.
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⬛ PERGUNTAS FREQUENTES:
Pergunta 1 — A medida protetiva pode ser decretada sem eu ser ouvido?
Sim. A Lei Maria da Penha permite que o juiz defira medidas protetivas de urgência com base apenas na declaração da vítima, antes mesmo de o acusado prestar esclarecimentos. O objetivo é proteger a vítima imediatamente. Isso não significa condenação — significa que a apuração ainda está em curso.
Pergunta 2 — O que acontece se eu descumprir a medida protetiva?
O descumprimento de medida protetiva pode levar à decretação de prisão preventiva. Na prática, é um dos cenários em que a prisão ocorre com mais facilidade no sistema criminal brasileiro — mesmo em casos onde a acusação principal ainda não foi julgada. Uma vez preso por descumprimento, reverter a situação é possível, mas consideravelmente difícil.
Pergunta 3 — Existe defesa possível em casos de falsa acusação de violência doméstica?
Sim, mas exige trabalho técnico criterioso. É necessário reunir provas robustas que contradigam a versão da acusação: mensagens, imagens, testemunhos, laudos, entre outros elementos. O advogado criminal tem o papel de apresentar essa versão ao juiz, ao promotor e à delegacia — que, num primeiro momento, só conhecem a versão de quem acusa.
Pergunta 4 — Preciso de advogado criminal ou qualquer advogado resolve?
É fundamental contratar um advogado especialista em direito criminal. Os casos que envolvem a Lei Maria da Penha têm particularidades processuais importantes, jurisprudência específica dos tribunais superiores e riscos graves como a prisão preventiva. Um profissional sem especialização nessa área pode não estar preparado para conduzir a defesa com a profundidade necessária.
Autor: Felipe Geitens — Advogado Criminal | Palhoça/SC | Atendimento em todo o Brasil
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